Apesar da faixa preta, que lhe cobria os olhos por completo, eu tive certeza, naquele momento, de que ele olhara para mim. Fora um olhar de soslaio, admito, mas tão intenso que eu não me surpreenderia se descobrisse que ele era realmente capaz de me ver. Ainda é um tanto inimaginável tentar reconstruir essa lembrança; e é doloroso quando, absorto em um pequeno delírio, eu me deparo novamente com a força daqueles olhos que eu nem sequer vi. Descrever o que senti pode ser complexo e confuso, mas eu não devo deixar de tentar. E descrever o que aconteceu pode ser inexplicavelmente insensato, posto que existira apenas para mim e para mais ninguém. Pudera tudo isto não ter passado de uma fantasia, mas a nota que ouvi-lo tirar de seu violino me acordara de qualquer devaneio. E foi este som que, penetrando em minha cabeça sem qualquer oposição, tornou tudo inevitável.
Descia a rua na direção de minha casa. Voltava do trabalho. Os pés cansados, o sol de fim de tarde esquentando a cabeça e ofuscando as vistas com sua coloração inebriante, o barulho inconfundível de uma cidade movimentada e as vozes das pessoas ao meu redor; todos os sons e sensações se acumulando sobre mim acabavam por tornar cada passo mais pesado que o anterior. Em minha cabeça, o único pensamento era o de chegar em casa. E qualquer coisa que pudesse contrariar esta vontade – ou o próprio ambiente que eu tanto ansiava – instigava uma inimaginável sensação de lasso. O paraíso após um dia no inferno? Pra mim era o que parecia. Chegar em casa e ver Ana preparando algo tão cheiroso que poderia fazer qualquer um apaixonar-se por ela imediatamente, sem nem ao menos vê-la; chegar em casa e desafivelar o cinto, soltar um pouco a gravata e se espichar no sofá; chegar em casa e ver minha querida Laura, a pequenina do papai, que não era mais tão pequenina assim, e fazer um cafuné em seus cabelos lisos, castanhos e cheirosos. Ah! Este sim era o paraíso. Era este tipo de pensamentos que habitavam o mundo misterioso dentro de minha cabeça e que, em menos de um segundo, foram levados embora dali. Tenho absoluta certeza de não ter escutado nada; nenhum som, nenhum acorde, nenhum tanger de cordas ou de qualquer instrumento. Absolutamente nada, até que o vi. Julgo o fato de tal forma estranho, pois, apesar de estar absorto em meus próprios pensamentos, acariciado por minhas lembranças mais importantes e atormentado pelas reminiscências de um dia tumultuado, meu cérebro captava todos os sons dos veículos, os murmúrios e lamentações das pessoas e meus olhos distinguiam perfeitamente cada cor daquela cidade imensa e imunda, como qualquer cidade grande parecia ser. Foi como se apenas eu o tivesse visto e, mais do que isso, sentido. Não havia nenhum semblante que denunciasse surpresa nas pessoas que estavam em minha volta, das quais pude observar. Na verdade, os rostos pareciam todos iguais; todos com a mesma expressão de pranto ou seriedade; todos rostos despreocupados com o mundo, mas que carregavam firmes um objetivo, qualquer que fosse. Eu me sentia como o último de uma espécie; o único entre dezenas que parecia aturdido com a presença de um violinista vendado caminhando pelas ruas. Estariam as pessoas tão somente preocupadas consigo mesmo, com seus próprios afazeres ou responsabilidades? Ou isso ou eu era o único que via o que estava acontecendo.
Desvencilhei-me destas idéias, pois, no exato instante em que ele – me refiro comoele, muito embora não tenha muita certeza de qual possa ser a designação correta – passara por mim, curvando o corpo para se desviar de algumas pessoas, que faziam o caminho reverso, e girando o rosto para focar uma única pessoa, eu percebi a suavidade de sua melodia. O som foi momentaneamente extasiante; minhas pernas tremaram, o coração desacelerou e senti uma tranqüilidade inexprimível. Por um segundo, pensei que fosse dormir ali mesmo; desabar e ser amparado nos braços de alguém. Mas nem isso aconteceu e nem este, que agora tornava o arco do violino para trás, parou a trajetória que vinha fazendo. Passou por mim e continuou descendo, o arco fazendo movimentos firmes, porém vagarosos. Sua música ainda soava em meus ouvidos; em minha cabeça. Uma música que imagino ter conseguido escutar mesmo com os tímpanos perfurados se ele assim quisesse. Em instantes já não o podia ver e, depois, também não mais o ouvia. Era o fim da sensação mais estranha que já tivera em toda minha vida. Lembro claramente o alívio que senti após vê-lo desaparecer por entre a turba preocupada apenas com seu tempo e seu trabalho. Aos poucos meu corpo foi relaxando; o sol abandonando a todos, as luzes artificiais crescendo em número e em tamanho, minha casa ficando cada vez mais perto. Já não pensava mais no que ocorrera; minha família começava a voltar para o lugar de onde não deveria ter saído. E foi quando percebi o que ele viera fazer ali. Era sua melodia retornando com força total e ensurdecedoramente apavorante. Lá estava ele, do outro lado da rua; os olhos vendados, mas – eu sabia muito bem – direcionados para mim. Como gostaria de ter aquela sensação de alívio novamente; como gostaria de vê-lo desaparecer dali, sumir, sublimar, explodir, qualquer coisa. Como gostaria que ele tivesse me deixado, assim como agora abandona meu quarto neste hospital fétido e indescritivelmente silencioso. Mas não. Ele continuava ali. Continuava me olhando. E assim o fez até o fim.
***
Lembro de estar descendo a rua de bicicleta. Vinha numa velocidade incrível. Saíra do colégio mais cedo e queria chegar logo em casa. Eu tinha planos para aquela noite. Há pouco me mudara para aquele lugar e ainda não conhecia quase ninguém. Pela primeira vez sairia com amigos; novos amigos. Sentia-me apreensivo; estava angustiado e também com fome. À frente, um imenso declive para descansar as pernas e sentir o vento. Não havia a necessidade de pedalar, pelo contrário, usar os freios era uma ótima idéia, mas decidi pelo contrário. Como disse, estava muito rápido e aquilo era o máximo. E, por esse motivo, eu realmente não a vi. Saíra de algum pátio ou jardim, dentre os tantos que havia naquele lugar. Não olhara para os lados assim como eu não olhara para frente. No outro dia, ambos ainda estávamos no hospital. Não sei dizer quem de nós dois estava mais machucado, mas não consigo esquecer a cena anterior. Ambos estirados no chão, cheios de arranhões e sangue; embolados um no outro e na bicicleta; sentido dor em cada centímetro do corpo. E, como se nada disso fosse realmente importante, ríamos feito crianças.
Foi como conheci Ana. Anos mais tarde estávamos casados e nascia Laura, a primeira e única. Logo que ela nasceu, nos mudamos para onde vivemos até então. Levamos uma vida tranqüila e nos amamos muito. Ser pai, para mim, fora uma experiência nova e inigualável. Amava Ana. E agora que Laura tinha nascido, podia viver esse amor mais uma vez. Nesta época, não costumava ficar pensando em qual fora o dia mais importante em minha vida. Para mim, todos os dias eram importantes por igual. Mas um deles me chamara a atenção de uma forma peculiar. Isso ocorreu alguns meses antes de Laura completar suas dezessete primaveras. Neste dia, chovia como nunca e estava frio. Sendo meu dia de folga, resolvemos ficar todos em casa e fazer um programa em família. Talvez um filme, quem sabe um jogo. Na cozinha, o vidro de pipocas tilintou com alguns grãos dentro. Não havia o suficiente nem para um pequeno rato, quem dera houvesse para nós três. E, sob a chuva, quem se habilitaria a ir buscar mais? É imprescindível que eu descreva esta cena do modo como estou fazendo, pois foi como tudo me pareceu: rápido. Tão rápido quanto descer uma lomba de bicicleta. Laura foi e, em um intervalo de cinco minutos, ela estava de volta à nossa porta, nos braços de um garoto alto e todo de preto. O cabelo do garoto estava escorrido e pingava uma mistura de água e sangue. Laura estava desacordada e tinha alguns arranhões nos braços e nas têmporas. Ele não a vira, assim como uma vez eu não vira Ana. Sua moto resvalou no asfalto úmido enquanto tentava desviar da garota que atravessava a rua indiferente do resto do mundo.
E quem diria que os dois, semanas mais tarde, estariam namorando?
***
Muito tempo já se passa desde que vi aquele rapaz, tão comum quanto qualquer pessoa, cruzando por mim e desejando, em uma língua que eu ainda não estava habituado a entender, que eu tivesse a sorte que ele não teve. Era um rapaz magro e belo, tinha os cabelos bem curtos e arrepiados. Trazia sobre os olhos uma faixa preta, como já mencionei anteriormente. Nos pés, sapatos igualmente pretos, assim como a calça de algodão e o blazer mal abotoado. Era possível ver a camisa branca sob o blazer nas mangas, que estavam desabotoadas, no colarinho e também na cintura. O violino, que carregava apoiado no ombro esquerdo, era muito belo; a madeira de um tom escuro e extremamente polida. Havia ainda, na lateral do violino, alguma coisa que destoava com sua imagem: dois recortes de papel, quadrados, um branco e outro amarelo. Em sua mão direita, muito firme entre o polegar e os outros dedos, o arco do violino fazia seu contorcionismo e produzia aquele som indecifrável no instrumento. Considerando-o de mais longe, era muito perceptível o fato de que sua roupa preta contrastava não só com a camiseta, mas também com sua pele, bastante branca.
Já não tenho mais aquilo que as pessoas usualmente chamam de vida. Muitos acreditariam que o que me foi garantido é uma dádiva, um grande presente. Uma nova vida! E como isso soa falso. Nesta existência prolongada, que agora me cabe, não vejo vantagens que possam sobrepor meu fado. O que o cavalheiro de preto me deixara, um cavalheiro que trazia nas mãos não uma foice afiada, mas um belo violino, era um presente que eu negaria sem sequer tocar, se soubesse seu conteúdo. Algo que, para tentar evitar, eu trocaria o céu pelo inferno, sem ao menos pensar no significado de ambos.
Voltando um pouco no tempo, não me esquivo em recordar, novamente, aquela música. O som do violinista negro e de fisionomia estranhamente peculiar, que não invadiu minha cabeça ou meu cérebro, mas penetrou diretamente minha alma. Aquele som. Ele me parecia muito mais belo quando eu escutava do jeito que qualquer pessoa o escutaria. Mas depois de conhecer o silêncio, um silêncio que pode ser tão doloroso e pesado quanto estar sozinho – ou quanto o esquecimento – é que aprendi a ouvir o que a música tem a dizer. E o que ouço agora não são mais acordes; não existe um “dó” ou um “ré” e nem mesmo um “fá”. Eles soam todos como lamentos harmoniosos das pessoas que tanto amei. E como dói ouvi-los. E como sói saber a verdade sobre eles.
Quando ouvi pela primeira vez a melodia, da qual tantas vezes fiz referência, enquanto caminhava por aquela rua movimenta, não imaginava estar próximo o meu fim. A verdade crua e inevitável. Morte. Mas não culpo ninguém pelo que aconteceu a não ser aquele por quem nem culpa nem qualquer sentimento ou acusação afetará; aquele que desviou meu olhar quando eu deveria permanecer atento ao movimento. Deveria continuar prestando atenção à minha vida. Fui arremessado alguns metros adiante, sujando de sangue o asfalta negro e, sem demora, levado ao hospital. Minha cabeça não entendia o que estava acontecendo. Não creio que meus olhos pudessem enxergar alguma coisa, mas sentia que tudo girava. Ouvia todos os sons que por um momento me abandonaram e queria, mais do que tudo, que eles desaparecessem. Queria poder escutar aquela maldita musica novamente. E queria descansar. No hospital, enquanto tentavam me manter vivo, ouvi toda sua história. E tivemos nossa derradeira conversa. Contou-me coisas inacreditáveis; contou-me que era algo necessário e, mesmo que quisesse, não poderia deixar de fazer. Isso, mais do que tudo, eu entendo. E perdôo. Mas ele deixou de informar algo importante. Algo que jamais poderei perdoar. Algo que me prenderá aqui para todo o sempre, enquanto isso existir.
***
Quando eu completei treze anos, recebi um dos presentes materiais mais valiosos de toda minha vida. No dia de meu aniversário, um domingo ameno e ensolarado, fomos visitar a casa de meus avós. Havia bastante gente por lá, todos parentes próximos. O almoço foi farto e divertido, como sempre é nestas ocasiões. À tarde, quando a maioria das pessoas já havia se recolhido para dentro de casa ou já haviam partido rumo a suas próprias, ainda restavam no jardim eu, sob a sombra de uma pequena macieira, meu avô e mais um casal de tios conversando próximos. Mexia em algumas pedras, tentando inventar algum tipo de brincadeira para passar o tempo. Não estava entediado, mas um pouco apático; ainda digeria meu almoço e esse processo causava certa sonolência. Uma brisa suave movimentava as folhas, pouco acima de mim, e batia em meu rosto e em meus olhos, que se fecharam sem que eu percebesse.
Acordei com uma mão no ombro, que não era minha, e um rosto idoso, barbudo e sorridente à minha frente. Arregalei os olhos por um instante e dei um leve sobressalto para trás, mas a amabilidade daquela feição tornava um susto bastante improvável de ocorrer. Meu avô. Tinha uma barba branca bastante grande, traços suaves, olhos profundos e um chapéu de palha na cabeça. Sabia que sob ele não havia mais cabelos, mas era como se o próprio chapéu tivesse tomado seu lugar. Ele olhou para mim longamente e sorriu, sem dizer nada, mesmo após ter certeza de que eu já estava completamente desperto. Após seu convite, levantei e segui com ele para uma caminhada. Atravessamos o gramado e nos dirigimos para os fundos da casa. Lá havia um pequeno açude de águas marrons. Dizia meu avô que havia peixes lá. E eu acreditava sem questionar se era verdade ou não, apenas indagando mais e mais a respeito dos próprios peixes. Desde o início de nossa caminhada eu notara que ele trazia algo sob o braço direito: um pacote pardo e amassado, mas com o formato de um paralelepípedo. Quando chegamos à orla do açude, estacamos. Ficamos um tempo ali, de pé, observando o horizonte e completamente em silêncio. Era realmente belo. O sol ainda não pensava em se por e podíamos ver a paisagem muito distante. Tudo extremamente verde, campos, árvores, pássaros, pedras. Para mim um dos mais belos quadros jamais pintados. Um quadro real como nenhum outro poderia ser.
“Sabe o que falta, em minha opinião, para tornar esta paisagem perfeita?” – Indagou meu avô, ainda fitando o horizonte.
Eu não saberia responder corretamente mesmo com a sua dica. Então ele continuou:
“Eu posso ver esta paisagem estupenda; posso sentir o vento e o sol em meu rosto; posso sentir o cheiro do campo e, se eu quiser, posso até degustar uma fruta de qualquer árvore. Mas sempre me perguntei: por que os pássaros voam tão longe? Dessa distância eu nunca conseguirei escutar seu canto. Você consegue?”
“Não.” – Respondi.
“É por isso que sempre achei este o lugar perfeito para isto.” – E desembrulhou seu pacote. Dele, vi surgir um estojo preto e, logo após, uma bela flauta doce. Meu avô levou-a aos lábios e assoviou uma canção tão bela – e isso eu posso garantir – quanto o canto dos pássaros. Ouvi-o por algum tempo sem sequer me mover. Em seguida ele pediu para que eu tentasse. Como toda criança assustada com algo novo e desconhecido, eu neguei. Mas acabei tentando alguns sopros mais tarde. Nossas sombras já estavam bastante espichadas quando resolvemos voltar para casa. Antes de levantar do lugar onde havíamos nos acomodado, meu avô fez uma proposta irrecusável: disse que iria me ensinar a tocar tão bem quanto ele, se eu assim quisesse. E eu queria, muito. E foi ao responder isso, que ele me ofereceu sua flauta de presente. O melhor presente de todos.
Levantei de meu lugar, segurando firme aquele pedaço de metal mágico, e segui alguns passos à frente. Parei e virei para trás para esperá-lo e percebi que ele também estava parado. E ali, de pé, ele completou o pedaço do quadro que estava faltando em minha imaginação. Um senhor afável com um lindo sorriso e olhos tristes.
“Você sabe por que os pássaros voam tão longe?”
***
“Você não acha que já dormiu demais?”
A voz soou de muito longe, mal chegando aos seus ouvidos. Era em um tom sarcástico que vinham estas palavras e carregavam certo desconforto e pesar. Aquele deitado teria grande receio de descobrir o dono dessa voz. Mas a verdade é que ele soube desde o princípio.
“Por que não acorda agora para que possamos conversar?”
Ele se remexeu no lugar onde estava. Balbuciou algumas palavras, murmúrios, mas os olhos permaneceram fechados.
“Ambos sabemos que o tempo é curto, embora você deva pensar que o seu tempo já acabou.”
Não. Seu tempo não havia acabado ainda. Podia sentir que... então era verdade! Não sentia absolutamente nada. Mas talvez isso se devesse ao fato de estar dormindo, o que era uma suspeita bastante promissora.
“Você não quer que eu toque uma música para você acordar?” – Novamente o tom sarcástico.
Agora era impossível permanecer deitado, desacordado, e foi com um sobressalto que ele ficou de pé. Por mais que tentasse pressionar os dedos, as laterais das coxas ou apertar as pálpebras, como vinha fazendo, não conseguia sentir a si mesmo. Seu corpo estava ali, ele podia ver, embora não acreditasse no que via. Enxergava cada centímetro de si mesmo, embora não o fizesse com os próprios olhos. Como podia ver, seus olhos permaneciam fechados. E, embora estivesse de pé, estava deitado bem a sua frente. Uma sensação horrenda invadiu-o. Era como participar de um drama como ator e expectador ao mesmo tempo.
“Preciso que você me escute.”
“Eu estou morto?” – Foi a primeira frase que lhe escapou, sobrepujando todas as outras palavras que, amontoadas, não tinham como sair.
“Sim, seu corpo está morto, embora seu espírito – ou como queira chamar – ainda esteja preso a ele. Mas não tardará até que se liberte.”
“Era a minha hora?” – Novamente não houve tempo de organizar as palavras adequadas. Fez essa pergunta à toa e não esperava uma resposta lógica. Ainda refletia no que acontecera. Se este era realmente o fim, não o parecia. Quanto ao outro, o que recebera a pergunta, restou certo desconserto e ele virou o rosto. Teria corado se isso fosse possível.
A eternidade se desfez em alguns segundos e agora ambos se olhavam. Havia algo a ser dito, mas que tardaria ainda um pouco. O homem do violino, que não tinha mais nada nas mãos a não ser um par de luvas pretas, permanecia imóvel, ostentando em seu olhar um ar de tristeza. Olhar que não era mais protegido pela faixa preta, e agora revelava um aspecto tão vago e frio que poderia fazer tremer o mais insensível dos homens.
“Então você acredita em destino?”
Ele não entendeu a pergunta no primeiro instante e demonstrou isso com um franzir de testa. Em seguida seu semblante se desfez e ele retrucou:
“Não tenho como negar isso, considerando o que disse antes, mas não costumava pensar que estava preso à minha história. Sempre foi mais fácil pensar estar fazendoa minha história.”
“É. Você está certo. Mas nem sempre estas escolhas cabem realmente a nós...” – E, dizendo isso, levantou um pequeno pedaço de papel amarelo. No papel, em letras pretas e borradas, estava gravado o nome daquele que agora o lia. O papel esvoaçou em um vento que talvez nem existisse. Houve, então, um momento de silêncio.
“Livre-arbítrio? Não acredito mais nele. Nem quando estava vivo – e agora posso dizer isso com certeza – tinha controle total sobre minhas próprias decisões. A maioria das pessoas crê que pode fazer o que quiser; que os caminhos são infinitos. Mas a realidade é outra. Os caminhos podem ser – e sem dúvida o são – muitos. Mas sempre escolhemos um dentre os poucos que trazem alguma perspectiva para o futuro. Entende o que quero dizer?”
Ele baixou a cabeça como resposta e, em sinal de afirmação, voltou a encarar aqueles olhos negros e frios. Em seu rosto estampou-se uma expressão de cansaço. E ele realmente havia cansado de rodeios. Estava claro para ambos que havia algo a ser dito. Algo importante. E por que seria tão difícil para um morto – sim, um morto! – dizer aquilo que precisava?
“Como eu vinha dizendo, a vida das pessoas pode, muitas vezes, já estar decidida. Alguns estão destinados a morrer em determinado tempo, enquanto outros têm seu futuro em pendência. Ou seja, elas continuarão ali enquanto assim forem úteis ou quando não estiverem influenciando no rumo da história.”
“Rumo da história?”
“A vontade de alguém.”
Alguém? Alguém era muito vago. Mas ele sentiu que não deveria questionar. E sentiu que, mesmo que o fizesse, obteria aquele mesmo olhar devoluto como resposta.
“Então eu estava destinado a morrer? O que eu poderia fazer de tão importante?” – Houve certo rancor no tom de vez. O outro poderia ter interpretando tanto como raiva quanto como medo. A resposta veio em um tom à altura:
“Diga-me uma coisa: o que você acha que eu faria de tão importante?”
Era a resposta absoluta para todas as perguntas: silêncio. Ele poderia ter inclinado os ombros ou, com um gesto, expresso que não sabia a resposta. Ao invés disso, continuou encarando-o, sério. Percebera que seu comentário anterior fora impensado e agora se preocupava com o que poderia ouvir. Mas não ouviu nada. Por um longo intervalo, enquanto mantinha sua cabeça baixa e os olhos fixos em lugar algum, foi observado pelo violinista. Ele, por sua vez, parecia respirar profunda e pesadamente. O rosto muito sério se alternava, agora, entre momentos de nervosismo e inexpressividade. E foi ele quem tornou a falar:
“Não serei eu aquele que o fará perceber que esta nossa pós-vida, se assim posso chamá-la, não pode ser caracterizada de uma forma que não seja pejorativa. O fato de estar privado de todas as sensações humanas, algo que você não deve ter percebido por ainda lhe parecerem tão comuns, é o primeiro e não único ponto negativo desta nova trajetória. Mas isso, assim como foi comigo, é algo que você só vai perceber quando acreditar ter descoberto algo proveitoso. Agora que estou aqui, percebo que as pessoas que permaneceram tinham um ditado bastante coerente. 'A esperança é a última que morre.' De fato lembro-me que, quando cheguei, tinha o coração...”
Levou ambas as mãos em direção ao peito, olhou para elas e calou. Pensava em como poderia retratar seu coração se nem ao menos tinha um. Mas não é ambíguo como pessoas de má índole conseguem falar de amor e de corações alheios tendo o seu próprio cheio de veneno? É possível que este órgão tão mal representado fosse apenas símbolo de algo maior. Algo inerente às pessoas, independente de como fossem ou estivessem. Desta maneira, não seria errôneo dizer o que pensara. Tinha o coração cheio de esperança, sim! Uma esperança tão pura e verdadeira, mas que, como qualquer folha exposta ao sol, foi vagarosamente secando, envelhecendo e amarelando. Eventualmente o vento a levaria para longe até que alguém, sem perceber que cada existência pode ter uma história para contar ou que cada metáfora pode ser ou representar uma verdade, pisaria nela, a desfazendo em pedaços bem pequenos. E desta vez estes pedaços voariam para longe. Muito longe.
“Não tenho muita certeza de quanto tempo estou aqui. Tenho menos certeza ainda sobre o que é este lugar, sobre o que sou e o que sinto. Mas busquei algumas verdades que me satisfizeram e vou oferecê-las a você. Não sei quais serão os efeitos que minhas palavras lhe induzirão, mas elas são tudo o que tenho. Aquilo que me suporta. Neste lugar nós somos exceções. Junto a nós estão aqueles que tinham grande apego à própria existência e aqueles que devem fazer com que a história continue. O grande resto já serviu ao seu propósito e, se morreram, simplesmente deixaram de existir juntamente com tudo aquilo que foram em vida: idéias, opiniões, sentimentos. Tudo isto perdido em troca do esquecimento. E acredite: é melhor que seja assim. Memórias esquecidas que, ativamente, nunca mais influenciarão na vida de outras pessoas. Quanto a nós, talvez façamos parte de algo maior ou, talvez ainda mais provável, não tenhamos cumprido o suficiente...”
Ele fez uma pausa e novamente pareceu respirar. Na medida em que falava, ia despejando idéias tão vagas e cheias de significados que criavam a ilusão de elucidar os pensamentos. Para um, tudo parecia mais simples a cada sílaba. Para o outro, era uma falsa sensação de verdade que o impedia de questionar.
“Estou me delongando, mas creio que você descobrirá o porquê e espero que me perdoe. Não quero que me odeie pelo que fiz. Morri e, assim como alguns outros, continuei existindo. E existi até então para que a história pudesse continuar. Tanto quanto eu, você sabe que algumas pessoas devem nascer e outras, por algum motivo, devem morrer. Algumas devem tornar-se importantes, enquanto que outras são, simples e inevitavelmente, esquecidas.”
Pela primeira vez em algum tempo ele sorriu. Havia algo errado, mas que fora esquecido; talvez propositadamente deixado para trás. Logo que terminara sua frase, percebeu que estava quase acabando aquilo que tão arduamente tinha começado. Suas mãos, que já não eram suficientemente humanas e visíveis, agora pareciam feitas de fumaça. Aos poucos, algo se tornou notório e verdadeiro: ele estava desaparecendo. E sorria.
Na outra mente, que observava com certo assombro o que acontecia, uma idéia começava a borbulhar de algum canto obscuro. Afinal de contas, não precisava ser tão ruim permanecer ali. Fora convencido disso? Queria realmente isso? É, talvez estivesse com vontade de permanecer morto por algum tempo. Aceitaria esse preço por enquanto, embora não soubesse ao certo qual o valor a pagar. Já pagara sua vida para estar ali, o que poderia ser pior?
“Espero que esteja certo disso. Triste e verdadeiro. Fato. Mesmo mortos, continuamos sendo humanos.”
As palavras que lhe fugiam agora faziam menos sentido. Aos poucos, não só as mãos tornaram-se fumarentas, mas também o resto do corpo começou a se desfazer. Era uma fumaça preta, cinza e branca ao mesmo tempo. Começou a sentir-se sonolento enquanto via e sentia aquela fumaça. Aos poucos, já não podia mais distinguir o rapaz de sua fisionomia original. A fumaça manteve sua forma humana ainda por um tempo, mas agora parecia materializar-se em outra coisa. Mal conseguia manter os olhos abertos. Tudo parecia mais pesado, mais escuro. Se tivesse caído em sono, provavelmente isto já fazia parte de um sonho. Mas não tinha certeza. O que via agora em senhor idoso com um fardo preto nos braços. Não, era apenas um montante de fumaça. Novamente parecia um senhor. Os cabelos brancos, os olhos negros, o sorriso cinza. E um sincero ar de felicidade. Foi quando tudo desapareceu.
“Você fará aquilo que eu jamais poderia fazer.”
***
Acordou em algum lugar desconhecido, mas não deu muita importância para isso. Não havia paredes e o chão onde estava deitado não lhe era familiar. Sobre seus olhos um céu azul com poucas nuvens brancas. O sol, estando a leste de onde ele permanecia deitado, era bloqueado por algumas construções, mas estava lá, o que era reconfortante. Sua cabeça parecia flutuar e ele acreditou que, logo que quisesse, poderia fazer o mesmo. Sentia-se leve e descarregado de toda e qualquer preocupação. Inclinou a cabeça para frente e avistou a ponta de seus pés virados para cima. Sapatos pretos. Deitou novamente e riu como se fosse a melhor piada do mundo. Riu como nunca e sem motivo algum. Vestia roupas que conhecia muito bem, mas que eram guardadas para ocasiões especiais ou festivas. Levantou. Estava tão vivo quanto a situação lhe permitia. Em verdade não sentia o vento em seu resto e a luz do sol, que agora podia ver sobre o telhado de uma casa, parecia atravessá-lo sem deixar nenhum pouco do seu calor. Mas realmente não importava. Faria agora aquilo que ansiava desde que saíra do trabalho naquele dia infame. Ia para sua casa, ver sua querida família, passar um tempo com suas garotas, e desfazer aquilo que parecia ser um grande mal entendido. Começou a caminhar pela rua e, com o tempo, localizou o lugar em sua memória. Morava a algumas quadras dali. Não podia ver a casa de onde estava, mas bastava caminhar um pouco. A vida continuava por aquelas redondezas. Não via muitas pessoas fora de suas casas, mas sentia que elas estavam lá. O caminho a frente se estendia reto e plano. Os pátios das casas eram abertos e todos com grama verde plantada; as casas eram brancas em sua maioria e muitas tinham em sua construção algumas pedras que contrastavam com aquele branco pálido. Reconheceu, em alguns pátios, brinquedos de crianças, jornais recém arremessados, caixas de correio com correspondências recém entregues. Alguns varais estavam repletos de roupas coloridas ou lençóis floridos que esvoaçavam. Havia jardins, havia flores e havia fumaça nas chaminés. Era belo e era triste. A vida começava com o novo dia, mas existia uma inquestionável sensação de expulsão. Era como se estivesse no lugar errado; como se não fizesse parte daquilo ou como se, de alguma forma, não compreendesse mais o significado daquelas coisas. O peito não apertou como era de se esperar, mas a sensação foi parecida. Não sentiu as lágrimas que lhe jorravam da face, e por isso não as limpou com os dedos, que agora foram para dentro dos bolsos das calças. Continuou caminhando e forçou um sorriso como se nada estivesse acontecendo.
No cruzamento à frente virou à direita. Começava a se aproximar do centro da cidade e o primeiro indício disso era a enorme estrutura a sua direita. Um prédio de grandes dimensões, totalmente branco e com uma fachada tão larga quanto a quadra que ocupava. Não dirigiu o olhar para ali nem uma vez sequer. Percebera a existência do lugar de imediato, mas todas aquelas paredes brancas, e também as linhas de mesma cor sobre o asfalto no qual pisava, transmitiam-lhe um sentimento de inquietude. Passo a passo ele venceu aquela distância e tomou a esquerda na esquina seguinte. Agora, com a proximidade daquele lugar que, por alguns anos, fora seu lar, começavam a brotar-lhe pensamentos novos e ternos. Em momento algum deixara de ser um marido e um pai e ainda sentia-se responsável por qualquer coisa que pudesse acontecer com Laura ou Ana. Não poderia, de maneira alguma, abandoná-las ou deixá-las para trás para viver por conta própria e pagaria o preço que fosse para continuar ao lado delas. Sim, felizmente poderia ao menos acompanhar a história daqueles por quem tinha grande apreço; aqueles com quem viveu e quem amou.
Por outro lado, eram pensamentos bastante cruéis. Ver as pessoas e não poder sentir o seu toque, seu calor, seu cheiro; ter dificuldades em distinguir suas palavras ou não conseguir relacionar seu tom de voz aos sentimentos de afeto que mantinha em sua essência. Vê-las e não poder participar de suas vidas; não poder dar-lhes sinal algum. Vê-las sofrer sem poder dar amparo. Sentir amor sem poder exprimi-lo em forma de palavras.
Estacou no meio do caminho. Sua casa estava há apenas alguns metros, mas não tinha certeza absoluta de como sabia disso. O lugar era familiar; o conhecia como sendo seu bairro; conhecia aquelas ruas como a linhas de suas mãos, mas sentia como se estivesse ali pela primeira vez. E comparava este conhecimento a um inenarrável déjà vu. As imagens iam e vinham em sua cabeça, mas nenhuma delas tinha foco suficiente para precisar do que se tratava. Sua casa poderia ser tanto a mansão verde de dois pisos à esquerda, quanto a simples e mal acabada residência logo à frente. Também não conseguia distinguir os rostos das pessoas agora que estas lembranças eram evocadas. Esforçou-se o máximo que pode, mas não obtivera sucesso na maioria das tentavas. Ora era um rosto sem nome, ora um nome sem nenhuma imagem nítida. A grande maioria não passava de borrões; desenhos aquarelados e manchados por uma torrente de água. Pensou na filha com entusiasmo e esperança renovados: uma mão de bebê tocando sua face mal barbeada; uma mochila rosa com personagens infantis; uma folha branca com rabiscos de gizes de cera; os próprios gizes espalhados pelo chão de madeira; um primeiro bolo de chocolate bem sucedido. Mas eram todas lembranças mais sentimentais do que visuais. Fisicamente, Laura podia lhe parecer tanto como um polvo quanto uma árvore.
Desatou a correr. A ansiedade crescia, vinda de algum lugar desconhecido, e acabava por induzir uma tristeza terrível, já que ele não conseguia, de forma alguma, exteriorizá-la. Correu sem pensar em nada. Estava disposto a alcançar seu objetivo, não importando o que lhe fosse posto à frente. Aos poucos a paisagem foi lhe sumindo da vista; as casas, os jardins, o céu, o sol e as nuvens perderam nitidez de forma a lhe confundir. Por mais que tentasse manter certo grau de sanidade, via-se agora preso dentro de um quadro. Uma pintura barata vendida em uma loja de artesanato. Um cenário desfigurado e um borrão cinza no centro, que mais parecia um acúmulo de fumaça. Sabia que faltava pouco para chegar a sua casa; apenas mais alguns passos. Era só o que precisava, alguns passos, alguns segundos a mais e um pouco de esperança.
Lentamente tudo foi retornando ao normal. Estava de pé e vestido de branco. Ainda ofegava por causa da corrida e mantinha a cabeça ligeiramente abaixada. O chão, que agora podia ver com certa claridade, revelava-se familiar assim como a casa à sua frente. Morava ali, sim; sem dúvida aquela casa era sua e podia ver, pela janela, as sombras das pessoas por cuja presença tanto ansiava. Sombras pretas em um fundo amarelo que se moviam com velocidade e pareciam brincar; cabelos longos esvoaçando junto com partículas de algo que ele não conseguia distinguir. Agora havia também sussurros, que foram, aos poucos, tornando-se agudos e profusos. Pareciam gemidos, ganidos... ou risos. Levantou um dos braços, o esquerdo, como que puxado por uma força invisível. Sua perna esquerda também levantou, como se preparando para dar um passo e, neste novo agora, ele estava dentro da casa. Estava bastante claro. Havia quadros nas paredes coloridas e tapetes forrando o chão. Não deu nenhum passo, mas viu-se movendo por entre os aposentos; caminhou pelas salas, uma a uma, até quando faltava apenas uma para entrar. Não havia porta. Era apenas uma abertura larga e oval na parte superior. Ele estava parado do lado direito de quem entra e esperava ali, apoiado na parede, como que pronto para dar um susto em quem viesse para fora de lá de dentro. Uma imagem nova estava se construindo em sua memória: uma bela sala de estar, tapetes de tons pastéis e incrivelmente macios, sofás aconchegantes, uma poltrona, uma mesa de centro de vidro com enfeites dourados, uma estante de madeira e um aparelho televisor ligado. Escutava as vozes ecoando lá dentro; inúmeras, mas apenas duas reais. Duas vozes femininas. Moveu-se para lado e seus olhos não-humanos não contiveram as lágrimas surreais que mais uma vez lhe brotaram da face. Elas estavam ali, um tanto diferentes, mais velhas, mais bonitas e felizes. Correu para abraçá-las, para que juntos continuassem aquela festinha particular; para que pudessem comer muitas pipocas e ver filmes até que não agüentassem mais o peso das pálpebras. Mas era inútil. Sentou-se por ali mesmo, revirando-se até conseguir se acostumar com o fato de não ter nada com o que se acostumar, e olhou mais uma vez para as duas meninas. Agora tinha certeza que não pertencia mais àquele lugar. E, mais uma vez, chorou.
***
Laura chegou em casa chorando. Eu estava em meu quarto organizando alguns documentos enquanto Ana preparava o jantar. Eram três da tarde quando ela saíra, junto com o namorado, para ir ao cinema e agora, cerca de quatro horas depois, ela estava de volta e trazia más notícias. Correu até onde eu estava e ajoelhou-se em meus pés, quase me matando de susto. Assustei-me ainda mais quando percebi que ela tinha marcas vermelhas nos braços, antebraços e cotovelos e chorava amargamente. Ergui-me e agarrei-a pelos ombros, perguntando o que havia acontecido. Meu cérebro já formulara dezenas de hipóteses nesse meio tempo e, como pai, já pensava em buscar o causador daquilo tudo. Brigara com o namorado? Apanhara de alguém? Não sabia o que se passava e estes quadros sem títulos causavam um impacto bastante agudo em minha cabeça. Ana, que ouvira a filha entrar, correu até onde estávamos. Questionamos sobre o que tinha acontecido, mas o choro engasgara todas as palavras. Na verdade não era bem isso, percebi depois. Ela refutava o ocorrido tal como se rejeitasse a própria existência em que estava predestinada a viver.
Com a ajuda de Ana, pusemo-na na cama. Ana sentou ao seu lado, na beirada, e alisou sua face, afastando uma mecha de cabelo úmido que lhe tapava o olho direito. Enquanto isso, caminhei até cozinha e enchi um copo com água. Diluí nele algumas colheres de açúcar e peguei uma toalha no armário sobre a pia. Quando voltei ao quarto, Laura soluçava e tinha a respiração acelerada, mas parara de chorar como antes. Notei que havia lágrimas nos cantos dos olhos de Ana, que ela fez questão de esconder tão logo eu entrei no quarto. Fingi que não tinha visto, como ela esperava que eu fizesse.
Fui até a cama e fiz com que Laura se erguesse um pouco para poder beber a água. Suas mãos tremiam, mas ela negou que alguém segurasse o copo por ela. Talvez este fosse um gesto de auto-sustentação. Talvez ela precisasse, naquele momento, de algo para se apoiar; de algo real, físico, que lhe proporcionasse alguma segurança. Enquanto ela bebia, Ana limpava-lhe os braços e o rosto. Busquei uma nova toalha, desta vez umedecida, e entreguei-a para que Ana continuasse o que vinha fazendo.
Por enquanto, tudo o que podíamos fazer estava feito. Aguardei em pé, na frente da cama, enquanto observava minha filha, de cabeça baixa e com o copo nas mãos, ser amparada pela mãe, tal qual uma gata asseia seu filhotinho. Levei uma mão para cima, apoiando o queixo, e a outra cruzei sob o tórax. Sentia uma ansiedade aterradora enquanto esperava pelas palavras de Laura. Acredito que Ana sentia o mesmo, mas ambos permanecemos calados à espera de que ela começasse a falar. Demos a ela o tempo de que precisava, apesar de nos parecer bastante injusto.
Sua primeira palavra não foi realmente formada por vocábulos, mas apenas um sussurro quase inaudível, e serviu para que ficássemos alerta naquele momento. Ela estava tentando dizer algo e talvez fosse preciso dispormos de alguma paciência. Logo após o primeiro murmúrio, Laura tomou um grande gole de água, como se apenas aquela palavra lhe tivesse secado a boca e a garganta e consumido com as forças que ela juntara até ali. Por um momento pensei que ela ia voltar a chorar, assim como uma criança faz quando relembra algo triste que lhe aconteceu. Mas ela levou o copo à boca pela última vez e engoliu, sem pestanejar, todas as lágrimas que pareciam tão eminentes.
Em uma segunda tentativa, ela realmente proferiu uma palavra importante. Mas Ana, não suportando mais a própria ansiedade, interrompeu-a de súbito indagando sobre a origem de seus ferimentos. Ela se revolveu, chorosa, e soluçou novamente. Por sorte o tom de voz de Ana fora sereno o bastante para não provocar nenhuma atitude diferente na filha, mas não eram os machucados que a preocupavam tanto. Aquilo, como ficamos sabendo mais tarde, era resultado de uma queda que Laura sofrera voltando para casa. Segunda ela, correra sem prestar atenção e tropeçara no meio-fio. Mas agora, deitada na cama e com os olhos vermelhos, ela mantinha uma expressão de desolação. Aguardamos mais alguns minutos até que ela proferisse as palavras que há tanto tempo vinha guardando. Foi uma frase curta que perfurou nossos corações com um grande sentimento de amargura. Três palavras que grudaram em minha mente e solucionaram, em parte, todo o mistério daquela trágica tarde chuvosa.
***
Ainda não estava completamente desperto e algumas imagens dançavam em sua memória, brincando como se fizessem parte de um sonho ruim e sem nexo. Acreditou ter visto a si mesmo acordando em um lugar desolado e desconhecido e, em seguida, percorrendo um tortuoso caminho de terra preta. Estava sob a sombra de árvores que quase se fechavam sobre sua cabeça e por cujas folhas podia ver o sol brigando por uma passagem. Estava escuro ali e todos os cantos para os quais olhava pareciam embaçados e obscuros. Tinha a impressão de ver figuras penduradas em galhos tortos, nas tocas de pequenos animais, sobre pequenas aglomerações rochosas e também espalhadas pelo chão onde pisava. Eram rabiscos, rascunhos que iam tomando forma a cada passo que ele dava. Rostos de pessoas que conhecia, cenas de sua própria vida, fatos que lhe constituíam a existência e que acabariam por tornar aquele passeio pelo desconhecido um tanto insuportável. Aos poucos, conforme completava o significado daquilo em sua memória, percebia que conseguiria sair dali sem muito esforço. E foi quando decidiu dar um fim àquela história, pulando para fora do sonho nefasto que lhe fora implantado.
Agora estava tudo escuro. Poderia estar dormindo ou ter apenas trocado de sonho. Os olhos permaneciam fechados, mas conseguia ver que a escuridão desvanecia. É possível que estivesse se acostumando, pois, quando decidiu abrir os olhos, podia ver tudo com uma nitidez incrível. Sabia onde estava e sabia que, mesmo assim, não era o mesmo lugar. O pátio de sua casa mudara; o que via agora era um belo jardim com grama recém plantada, algumas flores com poucos brotos e uma cerca viva em fase de crescimento. Anões e animais de argila ocupavam os espaços centrais, juntamente com algumas pedras. Os refletores de baixa potência estavam desligados, apesar de ser um fim de tarde bastante escuro. A porta da frente, estando semi-aberta, deixava escapar um mórbido feixe de luz, que ele só foi perceber depois. Antes disso, olhou para si mesmo: um belo traje preto incluindo sapatos, calças, gravata e abotoaduras prateadas. Em seus pés, descansava um estojo preto.
Cerrou os olhos e deixou-se levar pela situação. Estava agora abrindo o estojo e revelando um belo instrumento musical preso ao veludo carmesim. Uma flauta prateada. Montou-a sem, no entanto, leva-la à boca. Do lado de fora, via-se como um jovem em sua idade áurea de vinte ou vinte e um anos. Toda a beleza e juventude em um corpo que, de fato, não era real. Pensou na filha e na esposa e, desta vez, podia ver as duas como elas realmente eram. Sorriam para ele e chamavam-lhe pelo nome. Estava na tangência entre as sensações de loucura e alegria, o que era bastante banal considerado sua verdadeira situação. Pensou nisso como os efeitos de um alucinógeno incomum e foi tomado por certo embaraço logo que a imagem da esposa voltou-lhe à memória, tão clara quanto o brilho do sol.
Deu um passo a frente, despertando de seu breve devaneio. Um aglomerado de sensações e sentimentos subia-lhe pela existência, misturando entusiasmo e flagelo, pressa e compaixão, amor e calamidade como se fossem peças de um quebra-cabeça confuso. Não era o que esperava, mas a imagem deste quebra-cabeça começou a brotar-lhe vagarosamente. De súbito, percebeu que havia levado a flauta à boca; agora a imagem era a dele próprio em um jardim, rodeado de pedras, folhas secas e enigmáticos traços brancos. Soprava uma melodia preguiçosa e aconchegante. As notas surgiam de algum lugar e, por alguma força misteriosa, eram transmitidas para as pontas de seus dedos, que apertavam as chaves com firmeza e iam transformando seu sopro volúvel em belas sonorizações. Agora a música ecoava por todo o éter como uma ária indolente. A flauta movimentava-se levemente, apenas induzida pela vaga força da mão que a segurava e pelo ar que vibrava sonoramente de dentro para fora do instrumento.
Deu um novo passo e agora estava novamente dentro de casa. Assim como a certeza de que aquele era o mesmo lugar, tinha também a vaga sensação de estar em um tempo diferente. Subiu as escadas, que eram precariamente iluminadas por um lustre de parede antiquado e que dava ao ambiente um aspecto arcaico, mas charmoso. Tudo parecia estar embebido em certo tom de azul bastante escuro; tanto as paredes quanto o próprio ar pareciam carregados estática e eletricamente; pareciam interagir com quem passasse por ali, de forma a tornar os sentimentos mais amenos e apaziguadores. A porta fechada à direita, no final dos degraus, não era obstáculo à altura e ele passou por ela como se estivesse aberta. No quarto, sob lençóis brancos e entre alguns ursos de pelúcia, dormia Laura. Vestia um pijama celeste e estava linda como sempre. Tinha os cabelos castanhos e lisos caídos na face, os olhos fechados e uma expressão tão tranqüila que era possível sentir uma aura de paz fluindo ao seu redor. Ele se aproximou e toucou-lhe a face quente. No entanto, não foi um toque de verdade, mas uma tentativa. E havia aquele delicioso aroma de eucalipto, que pairava no ar e embebia o sono de sua filha, mas que estava apenas em sua imaginação. Sentiu um aperto quando lembrou das palavras que ouvira há algum tempo, tempo este que não sabia mensurar com exatidão. Agora que descobrira como era bom poder ver e acompanhar a vida daqueles a quem amava, agora sim que todas as sensações lhe faziam uma terrível falta. Agüentaria qualquer dor, respiraria os piores odores, comeria dos frutos mais azedos e suportaria todas as agruras do visível e do audível para poder, mais uma vez, desfrutar do toque suave de uma carícia em seu rosto. Um toque de quem lhe fazia sentir o mais puro sentimento de amor, o qual nenhuma outra criatura viva jamais seria capaz de lhe proporcionar.
Aproximou-se ainda mais da cama da filha, agachando-se ao seu lado. Estava mais ou menos na altura de seu rosto e a observava com uma expressão de emotiva felicidade. Fechara os olhos para poder viver um pouco daquele momento apenas consigo mesmo, mas tudo se tornara escuro demais; tenebroso demais. Estava novamente no vazio, porém, desta vez, havia uma questionável certeza de que poderia, a qualquer momento, abrir os olhos e se livrar de todo aquele peso que a escuridão e algumas idéias ruins lhe causavam. Abrir os olhos e deixar que a luz devastasse as sombras de seus maus pensamentos e que a visão de algo – alguém – inundasse seu existir de sentimentos alegres. Entretanto, enquanto permanecia ali, em sua existência própria, sentia que algo vinha em sua direção. Algo que, quando estivesse perto, faria o chão vibrar e amedrontaria todos os pássaros para longe; algo que faria gelar a alma e empobrecer o espírito. Quando a imagem tomou forma, as peças do quebra-cabeça se juntaram e todas as figuras de seu devaneio tornaram-se uma só. Agora suas pálpebras se escancaravam por conta própria e ele sentiu a única coisa de que ainda era capaz: dor. Percebera, nesse instante, o grande erro que cometera.
O motivo pelo qual o violinista de olhar vago sorria enquanto estava desaparecendo estampou-se em sua memória e começava a arder feito brasa viva. Aqueles não eram apenas olhos vagos e frios; eram olhos conhecidos! A “vontade de alguém”, dissera ele? Não. Isto era a vontade dele, mais do que de qualquer outro. Crescia-lhe um tremor pelas pernas que foi subindo até o peito. Era o asco destas malditas lembranças e a repugnância de ter encarado aqueles olhos cheios de uma falsa condolência. Sim. Mesmo mortos continuavam sendo humanos. Continuavam colocando suas necessidades em primeiro lugar. E não poderia ser diferente jamais.
Não queria abrir os olhos assim como não queria encarar o seu destino. Sua própria imagem materializava-se em sua frente segurando a flauta firmemente na mão direita e carregando um sorriso malicioso na face. Comparou esta criação sua com o próprio violinista; agora sabia quem ele era e o que viera fazer. E questionava o porquê de não ter percebido antes aquilo que agora parecia evidente. Uma cena do passado voltava-lhe à lembrança. Laura chegando em casa em uma tarde tão chorosa quanto ela própria. E suas três palavras melancólicas – “ele está morto” – proferidas pouco depois de ela deixar escapar, quase como um engasgo, o nome do namorado. O garoto morrera atropelado naquela tarde chuvosa, deixando tanta gente querida para trás; deixando Laura para trás enquanto esta o observava agonizar na maca da ambulância. A chuva intermitente se confundiu com suas lágrimas e ela correu para casa; eram as esperanças de um futuro feliz e tranqüilo se espedaçando como uma folha seca pisada pelo destino.
O terror que agora sentia era real e não uma sensação provocada pela química de seu cérebro. Abrir os olhos ou permanecer na escuridão? A verdade dolorosa era que não tinha uma opção; não tinha sequer uma escapatória. Já estava morto e aquilo poderia perdurar consigo pela eternidade. Começou a caminhar e estava agora na frente de uma grande estrutura branca. O hospital. Entrou e lá se encontrou recebendo um estojo preto de um ser de fumaça. Jogado em um canto, um pedaço de papel amarelo com seu nome nele. Sobre o estojo, um outro pedaço de papel.
Estava de volta a realidade. O quarto da filha com seu perfume tranqüilizante e uma música soando baixinho no seu aparelho de som. Trazia a flauta paralela ao horizonte, amparada sobre ambas as mãos. Grudado na flauta, algo que agora lhe pertencia. O vira pela última vez em um belo violino de madeira; aquele pedaço de papel branco. E, enquanto o último verso da música ecoava em seus ouvidos, ele o leu. Foi assim que uma única palavra expulsou para sempre toda a esperança de seu coração, destruindo com suas expectativas antes tão alegres. No papel, cinco letras grafavam seus mais terríveis sentimentos.
Laura.
“Love is watching someone die...
So who’s gonna watch you die?”